
Quando, emocionado, ouvi Obama referir-se a Lincoln no seu discurso de vitória - «Como disse Lincoln a uma nação muito mais dividida que a nossa, "não somos inimigos, mas amigos"» -, tinha acabado de ler a biografia do segundo, de Richard J. Carwardine. Lincoln e Obama são filhos de Chicago - apesar de não terem lá nascido - foi na capital do Estado de Illinois que começaram as respectivas carreiras políticas. Ambos distinguiram-se pelas suas raras capacidades retóricas. Ambos herdaram um país dividido. E, de certa forma, a eleição de Obama completa aquilo a que Lincoln deu início, ainda que por acaso ou quase: porque se inequivocamente a Guerra da Secessão começou por causa da escravatura, nada no início da guerra faria prever a sua abolição. Obama e Lincoln eram, à partida, os candidatos mais improváveis para vencer as respectivas eleições presidenciais e Lincoln era, inclusivamente, considerado pelos seus amigos como inapto para exercer a presidência. Em "Lincoln" de Richard J. Carwardine - que não é nem um biografia pessoal nem um retrato iconográfico do mito - vemos claramente um homem feito pela função (que, aliás, redefiniu, aumentando substancialmente os poderes constitucionais do presidente). Lincoln foi o melhor fruto das piores circunstâncias. Por último, ambos formaram um governo de rivais. Oxalá, as semelhanças com Lincoln não se fiquem por aqui (à excepção do assassinato, bem entendido).